Como a Globo aproveitou a crise da Tupi e das outras concorrentes para montar o departamento que entraria para a história da dramaturgia mundial.
O golpe de Boni e Daniel Filho para substituir as novelas "mexicanas" da Globo por tramas realistas inspiradas na revolucionária Beto Rockfeller, exibida pela Tupi.
A explosão da audiência de novelas como Véu de Noiva, Irmãos Coragem e Cavalo de Aço deu origem a um star system com pecados e virtudes muito parecidos com os de Hollywood.
Como os autores da Globo, entre eles alguns comunistas, driblaram a ditadura com recados que o jornalismo da emissora não podia dar.
O abismo de antipatia entre os intelectuais e acadêmicos e a dramaturgia da Globo.
Como os enlatados americanos foram substituídos por minisséries da Globo que mergulharam na literatura e na realidade brasileira com a obrigação de dar audiência.
Os vetos, cortes, idas e vindas que marcaram a luta interna dos autores e diretores da Globo para incluir em suas tramas temas como racismo e homoafetividade.
A criação do Projac, a "fábrica de sonhos" que transformou a produção de novelas da Globo numa linha de produção industrial em que nem sempre houve espaço para a arte de interpretar.
O trauma generalizado provocado em todas as áreas da Globo pelo fenômeno Pantanal, a novela da Manchete que acabou com as noites tranquilas da emissora no horário nobre.
Como a caretice nacional impôs derrotas a novelas como O Dono do Mundo ao mesmo tempo que Anos Rebeldes contava a primeira história da ditadura produzida pela Globo.
Como o estrago provocado pelo concorrente Ratinho levou a dramaturgia da Globo a flertar com respostas popularescas.
O que levou as novelas a perderem prestígio e dinheiro dentro da própria Globo, dando origem ao pior momento da dramaturgia da emissora em seis décadas.
Nas últimas semanas de Vale Tudo, em 1988, quando o país inteiro sabia que Odete Roitman ia morrer a qualquer momento, um anúncio de seguradora com a foto de Beatriz Segall e a frase "Nunca se sabe o dia de amanhã" fez a Globo manter a vilã viva por mais 24 horas, à revelia dos autores. Quando o crime finalmente foi ao ar, dois milhões e meio de cartas disputaram o concurso de "quem matou". Trinta e sete anos depois, no remake exibido em 2025, Odete sobreviveu e dividiu críticos e telespectadores. Quase quatro décadas separam as duas cenas, mas o fenômeno é o mesmo: uma novela da Globo ainda é capaz de fazer o país inteiro conversar sobre ela, do botequim às redes sociais.
Em A Globo, 60 anos: Dramaturgia (1965-2026), recorte temático da trilogia A Globo, publicada pela Autêntica entre 2024 e 2026, Ernesto Rodrigues reconstitui seis décadas de novelas, minisséries e seriados. Estão ali o reinado de Glória Magadan, a trilha sonora de Véu de Noiva, a proibição de Roque Santeiro, o fenômeno de Dancin' Days, o milagre de audiência de O Auto da Compadecida, a chegada do Projac e as disputas por uma audiência cada vez mais dispersa no século 21.
Com base em centenas de depoimentos do acervo do Memória Globo, entrevistas inéditas e fontes independentes, e sem qualquer vínculo com o Grupo Globo, o livro revela os egos, as paixões, os fracassos e os golpes de gênio por trás da ficção que moldou o imaginário brasileiro.